DO “EVANGELHO” AOS EVANGELHOS

( As etapas que antecederam a formação dos Evangelhos escritos)

Neste capítulo vamos estudar, sinteticamente, as etapas históricas que antecederam a formação dos evangelhos escritos. É isso que o título do capítulo sugere: do evangelho vivo para o evangelho livro.

As pesquisas histórico-crítica dos últimos 100 anos chegou às seguintes conclusões:

não há documento algum que provenha do próprio punho de Jesus, apesar dele saber ler e escrever.

Não há um relato sequer que remonte ao tempo anterior a morte e ressurreição de Jesus.

Entre a vida de Jesus e a composição literária do Novo Testamento (NT), na sua fase atual, há um fosso literário, isto é, entre o ano 30 e 50 da era cristã houve uma viva tradição oral e uma fixação de uma tradição escrita que testemunhava a crucifixão e ressurreição de Jesus.

Encontramos nos evangelhos hinos e orações de tradições escritas pré-evangélicas.

O chamado “fosso” pré- literário entre 30 e 50 depois de Cristo (dC) pode ser preenchido com:

Fórmulas de fé

Relatos da ceia (1Cor 11,23-25)

Relatos da paixão

Narrativas da ressurreição (1Cor 15,3-5)

Reunião de citações do Antigo Testamento

Reunião dos ditos de Jesus

Reunião das parábolas de Jesus

Reunião das discussões com Jesus

Coleção dos fatos e milagres de Jesus

Os primeiros cristãos se reuniam para ler e meditar as sagradas escrituras e relembrar os milagres, as parábolas e os ensinamentos de Jesus. Foi neste ambiente que surgiram posteriormente os escritos.

Portanto, o escritor neotestamentário deve ser visto dentro do ambiente religioso e histórico das comunidades cristãs primitivas. Ela não é um escritor de laboratório ou um teólogo isolado e solitário sem contato com a fé vivenciada pelos primeiros cristãos. Ele, antes de ser um escritor, é um homem de fé e faz parte do amadurecimento das fontes orais e escritas das tradições sobre Jesus e da consciência religiosa cristã de uma comunidade.

Vamos às etapas:

1ª) ATÉ O ANO “33”: A PREGAÇÃO DE JESUS

A atividade pública de Jesus começa com a prisão do Batista, logo após o batismo e o jejum, segundo o Evangelho de Marcos (Mc 1,14).

Jesus prega o que? Ele prega o “reino de Deus”, cuja próxima vinda exige penitência (MT 4,17; Mc 1,15). O Ev. De Marcos diz que Jesus “saiu a pregar o evangelho” de Deus (Mc 1,14s). São Lucas diz que Jesus ensinava nas sinagogas. Por aí notamos algumas diferenças na apresentação da atividade inicial de Jesus. Cada evangelista tem um acento próprio e uma público próprio. Essas diferenças não constituem divergências teológicas ou históricas, mas sim um enriquecimento maior da atividade e mensagem de Jesus.

Os evangelhos mostram Jesus reunindo seguidores, formando os ‘apóstolos’ de um maneira mais ou menos sistemáticos, isto é, para ser apóstolo o que era necessário? Em At 1,21s, Pedro responde.

De quanto tempo foi a duração da atividade do mestre? Segundo São João, mais ou menos 3 anos, pois ele fala de 3 Páscoas celebradas por Jesus e os apóstolos (Jo 2,12.23; 6,4; 13,1).

A vida, ações e pregação direta, didática e simples de Jesus é a base da redação escrita de todos os livros do Novo Testamento 30 anos após sua morte e ressurreição.

2ª) A COMUNIDADE PRIMITIVA CONSERVA O MATERIAL

A comunidade primitiva, isto é os primeiros cristãos com os apóstolos, foi o ambiente onde foi conservado a memória e o ensinamento de Jesus.

Nos primeiros anos após o Pentecostes (fato que aconteceu semanas após a ressurreição), temos a instalação da comunidade galilaica em Jerusalém. Provavelmente a maioria era de galileus (At 2,7) e certamente prevalecia, no início , a mentalidade galilaica.

Essa comunidade procurava dar testemunho ao povo (judeus da capital Jerusalém) a respeito de Jesus. Pelos Atos dos Apóstolos (primeiros capítulos), vemos que a pregação se concentra mais no sentido teológico da pessoa e figura de Jesus como o Messias anunciado pelas escrituras sagradas, o portador da salvação e que ressuscitaria. Testemunhavam que Jesus era a promessa anunciada por Deus através dos profetas.

Nesses primeiros anos o interesse maior não eram os ensinamentos, detalhes e memórias da vida e ensinamento de Jesus, apesar de lembrarem e meditarem os ditos e fatos da vida do mestre. Estas coisas permaneciam vivas na memória do povo em geral e foi transmitida oralmente por muitos anos até a composição escrita dos evangelhos.

As comunidades cristãs primitivas surgiram em várias cidades do oriente médio, como Nazaré, Séforis, Tiberíades, Carfarnaum e outras. E sem dúvida também aí se conservou a memória da passagem e ensino de Jesus.

São Lucas descreve nos Atos dos Apóstolos, o cristianismo que se irradiou a partir de Jerusalém, capital cultural, religiosa, política e teológica do judaísmo, para toda a vizinhança, Samaria e exterior até atingir o centro político do mundo, Roma. Com isso Lucas mostra a universalidade da mensagem, do Reino e da morte e ressurreição de Jesus.

A comunidade cristã primitiva além de conservar o material, era literariamente criadora. Essas duas funções se realizavam em 3 ambientes simultaneamente:

Pregação: as pregações repetidas foram criando, certamente, esquemas espontâneos fixos segundo os quais se passava o anúncio ao povo (At 2,22-36; 3,12-26 etc.)

Catequese: os convertidos queriam conhecer mais sobre Jesus, sua vida e mensagem. Na catequese (Lc1,4) se cristalizaram maneiras de apresentar dos ditos e fatos sobre Jesus. Aglutinou-se material em certos conjuntos, talvez por temas. Fixou-se certa maneira de narrar os milagres. Como exemplo de aglutinação da mensagem de Jesus, podemos apontar o Sermão da Montanha (Mt 5,3-11; Lc 6,20-26).

O Culto: a comunidade se reunia para a fração do pão nas casas dos fiéis (At 2,46) e se reunia no templo judaico para louvar a Deus e dar testemunho. Vemo-la reunida também na hora do perigo (At 4,24ss).

Ora, em tais reuniões cultuais, a Sagrada Escritura era lida sob nova luz, referindo-a a Jesus como o realizador das promessas.

A comunidade certamente criou cânticos ou hinos de caráter cristológico, por ex. 1 Tim 3,16, Col 1,15-20, Fil 2,6-11; Ef 1,3-14; 1Cor 15,3-5.

Certamente pertence ao culto a conservação e transmissão do Pai-nosso, a oração que auto-define a mensagem de Jesus. É do culto, finalmente, que nos vem o Relato da Paixão, intimamente ligado à Eucaristia.

3ª) AS ATIVIDADES MISSIONÁRIAS (a partir do ano 42)

A data ‘42’ é uma tentativa de marcar o início da atividade missionária. O batismo de Cornélio é proximo a esta data, e certamente representava muito para o evangelista Lucas, pois dedica-lhe 2 capítulos em sua obra (At 10-11). Trata-se da atividade missionária que se inicia em Jerusalém, após o Pentecostes, passa para a Judéia, Samaria, Galiléia até chegar a Roma.

A comunidade primitiva passou por conflitos internos como a aceitação de gentios convertidos, ou de não judeus, mas que foram superados pelo Concílio dos Apóstolos no ano de 48/49.

A consciência de que a mensagem de Jesus e a salvação trazida por ele era universal foi amadurecendo aos poucos. Nesta história salvífica os não judeus, os marginalizados também faziam parte.

Não podemos esquecer do apóstolo Paulo que se encontrava em plena atividade missionária nesta época, como veremos mais adiante.

4ª) O CONCÍLIO DOS APÓSTOLOS (48/49)

Nesta reunião, foi provocada pelo problema judaizante e missionário, foi dada a solução oficial e prática.

Em AT 15 vemos que o problema foi difícil de ser resolvido e que havia ânimos radicalizados: “sedição e discussão não pequena” (At15,2), escreve São Lucas de maneira discreta. Em At 15,5 se levantam os rígidos e Lucas diz que se tratava de gente convertida da seita dos fariseus.

Este primeiro concílio da Igreja teve lugar entre a 1ª e a 2ª viagem missionária de São Paulo, isto é, pelo ano de 48 ou 49. Momento importante para a comunidade primitiva, mas sobretudo para a Igreja da Missão, isto é, para o cristianismo helenístico ou gentílico (dos não judeus), onde foram escritos todos os evangelhos que temos.

Muito haveria a dizer sobre a importância desse Concílio. Sobretudo o interessante ‘Decreto Apostólico’ produzido por essa reunião (At 15,23-29). A igreja se descobre como a herdeira da missão de testemunha e pregar a mensagem universal de Jesus.

5º) O CORPUS PAULINUM (ANO 50 – 60)

As cartas de São Paulo precederam a redação dos evangelhos. Pergunta-se: será que elas não influenciaram na redação dos mesmos?

Em 51 foi escrito o mais antigo documento cristão, a 1ª epístola aos Tessalonicenses; a 2ª foi logo depois e após veio a destinada aos Filipenses. Seguem-se 1 e 2 aos cristãos de Corinto, ambas enormes, quase do tamanho do Ev. De S.Marcos, e na mesma época a destinada aos Gálatas. E, 58 de Corinto Paulo escreve aos Romanos, um documento importantíssimo e principal do teólogo Paulo.

Isto significa que quanto dos evangelhos foram escritos a Igreja já dispunha de uma literatura teológica.

6o) A REDAÇÃO DOS ATUAIS EVANGELHOS ( a partir do ano 60)

Existe uma tradição da existência de um Evangelho atribuído a S. Mateus escrito em aramaico, mas não temos nada de concreto.

O Evangelho de Marcos é o mais antigo que temos e é datado entre os anos de 65 – 67, embora outros críticos preferem uma data posterior ao ano 70.

Lucas, datado entre 75 – 85, ou até mais tarde. Parece que ele não conheceu o evangelho de Mateus, e sim o de Marcos.

Mateus atual, que usou o evangelho de Marcos como fonte, é datado entre 80 e 85 e certamente não seria apenas uma tradução da lendária versão aramaica.

O Evangelho de São João tem sua redação final datada entre 90 – 95.

Vimos que que muita coisa aconteceu na comunidade cristã primitiva antes da compilação e redação dos atuais evangelhos escrito . Saber disto é importante e pressuposição para uma reta abordagem interpretativa dos evangelhos.

É isso que a exegese moderna (ciência que estuda a Bíblia) tem procurado levar em conta, isto é, tem dado atenção especial ao período oral, por onde passaram as tradições antes de se fixarem por escrito. Assim fica claro que os evangelhos fazem parte de um processo longo de amadurecimento da própria fé cristã.

Quadro Cronológico dos Livros do Novo Testamento

30                      40                      50                           60
–|—————-|—————-|——————-|—-

70                         80                          90
————–|——————|—————–|———
100                       110
———|—————-|–
Epístolas Paulinas Epístola aos Hebreus 1ª e 2ª Epístolas
a Timóteo e a Tito
Evangelhos de Marcos, Mateus,
Lucas e Atos dos Apóstolos

1ª e 2ª Epístola de S. Pedro
e Epístolas de Tiago e Judas

Escritos de
São João
–|—————-|—————-|——————-|——————|——————|—————–|——————|—————-|–
30 40 50 60 70 80 90 100 110

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José Luiz C. Duarte

Bibliografia:

Voigt, Simão; Apostilas ‘Etapas que antecederam a Formação dos Ev. Escritos’, Petrópolis 1973.
Lapple, A .; “As origens da Bíblia”, Ed. Vozes.
“Bíblia”, Ed. Paulinas, 3o e 4o vol.
“A Bíblia Hoje”, Ed. Paulinas.
Charpentier, E.; “Para uma 1a leitura da Bíblia”, Ed, Paulinas.
Storniolo, I. e Balancin, E.; Comentários sobre a Bíblia publicado no folheto “O Domingo”, Ed. Paulinas.

março 2017
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