Arquivo do mês: janeiro 2014

Digo e repito para todos a quem eu possa influenciar que RH não pode se comportar como se fosse o “mordomo” da empresa. Quando você solicita para um mordomo (ou para um garçom) um café ou um filé, ele apenas traz. Não cabe a este tipo de profissional questionar por que você deseja um café ou um filé. Em várias organizações, as áreas solicitam a contratação de profissionais ou de treinamentos para RH que, sem questionar ou fazer análise da necessidade, apenas contrata. Antes que alguém se sinta ofendido, eu sei que currículos são triados, testes e entrevistas são feitos e que tudo isto dá muito trabalho. Mas eu estou escrevendo sobre algo mais denso e que muitos profissionais de recursos humanos não entendem: eles devem ter um profundo conhecimento do negócio e desenvolver processos de análise para ajudar seus clientes internos (as áreas solicitantes) a entenderem melhor suas próprias necessidades. Conheço muitos “analistas de RH e de treinamento” que nunca fizeram uma análise sequer em suas carreiras. Apenas servem, como os mordomos. Inúmeras vezes, a própria empresa não aceita de RH a postura do questionamento e da análise. Se for assim, RH- mordomo custa muito caro para a empresa. Por exemplo, ao receber a solicitação do preenchimento de uma vaga, recursos humanos deve identificar se é reposição, aumento de quadro ou cargo novo. Reposição é o caso mais simples. Aumento de quadro deve sofrer análise da produtividade do cargo e quais fatores justificam o acréscimo de pessoal. A análise deve ser baseada em números e evidências. Aumentar quadro deve ser um processo dolorido para quem pede. A solicitação para a criação de um cargo novo deve ser precedida da elaboração do mapa de processo onde este cargo atuará, instruções de trabalho, manuais de treinamento e definição do perfil, além de números que justifiquem o novo tipo de profissional. Todos estes cuidados aumentam de forma diretamente proporcional à hierarquia do cargo.

Se a solicitação for para a contratação de treinamento externo, solicitante e analista devem discutir previamente como será medida a eficácia deste treinamento e qual problema, plano de ação, meta ou adequação ao perfil gerou a necessidade. Além disto, RH e solicitante devem analisar o conteúdo programático do treinamento e verificar onde e como o curso contribui  para a solução do problema.

Muito trabalho? Talvez, mas o custo x benefício compensa. A maioria das empresas possui um excesso de gente de 10 %, no mínimo. Uma das causas é a fraca atuação de RH. Outras tantas empresas jogam dinheiro pela janela contratando treinamentos descolados das suas necessidades. A causa é a mesma atitude equivocada da área que deveria liderar o processo de treinamento.

A missão de RH é viabilizar as metas da organização através da contratação, desenvolvimento e manutenção dos melhores talentos.

Alguns profissionais de RH não concordam e dizem que eles entendem de gente, seja lá o que isto significa. É lastimável! Gostaria que eles entendessem do negócio em primeiro lugar para que depois soubessem cumprir sua missão. Do contrário, ajeitem suas gravatinhas-borboleta e aceitem o papel secundário de mordomos.

Paulo Ricardo Mubarack (consultor de gestão, qualidade, administração de pessoas, rh, iso9001 e autor do livro empresas nuas)

051 81 82 71 12

mubarack@terra.com.br

www.mubarack.com.br

BoffNO MEIO  DO MAL-ESTAR MUNDIAL HÁ LUGAR PARA A ALEGRIA

No meio do inegável mal-estar mundial, irrompeu, surpreendentemente,  neste ano (2013), uma figura que nos devolveu esperança, alegria e gosto pela beleza: o papa Francisco. Seu primeiro texto oficial leva como título Exortação pontifícia ‘Alegria do Evangelho’ . Ele vem perpassado pela alegria, pelas categorias do encontro, da proximidade, da misericórdia, da centralidade dos pobres, da beleza, da “revolução da ternura” e da “mística do viver juntos”.

Tal mensagem faz o contraponto à decepção e ao fracasso face às promessas do projeto da modernidade de trazer bem-estar e felicidade para todos. Na verdade está colocando o futuro da espécie em risco por causa do assalto avassalador que continua fazendo sobre os bens e serviços escassos da Mãe Terra. Bem diz o papa Francisco: “A sociedade técnica multiplicou as possibilidades de prazer mas tem  grandes dificuldades de engendrar alegria” (Exortação, n.7). Prazer é coisa dos sentidos. Alegria é coisa do coração. E nosso modo de ser é sem coração.

Essa alegria não é de bobos alegres, que o são sem saber por quê. Ela brota de um encontro com uma Pessoa concreta que lhe suscitou entusiasmo, lhe produziu enlevo e simplesmente o fascinou. É a figura de Jesus de Nazaré. Não se trata daquele Cristo coberto de títulos de pompa e glória que a teologia posterior lhe conferiu. Mas é o Jesus do povo simples e pobre, das estradas poeirentas da Palestina, que trazia palavras de frescor e de fascínio. O papa Francisco testemunha o encontro com essa Pessoa.  Foi tão arrebatador que mudou sua vida e lhe criou uma fonte inesgotável de alegria e de beleza. Para ele, evangelizar é refazer esta experiência, e a missão da Igreja é resgatar o frescor e o fascínio pela figura de Jesus. Evita a palavra já feita oficial de “nova evangelização”. Prefere “conversão pastoral” feita de alegria, beleza, fascínio, proximidade, encontro, ternura, amor e misericórdia.

Que diferença com os seus predecessores de séculos! Apresentavam um cristianismo como doutrina, dogma e norma moral. Exigia-se adesão irrestrita e sem qualquer laivo de dúvidas,  pois  gozava das características da infalibilidade.

O papa entende o  no cristianismo não uma doutrina mas um encontro pessoal com Cristo

O papa Francisco entende o cristianismo em outra chave. Não é uma doutrina. É um encontro pessoal com uma Pessoa, com sua causa, com sua luta, com sua capacidade de enfrentar as dificuldades sem fugir delas. Agradam sobremaneira as palavras contidas na Epístola aos Hebreus, na qual se diz que Jesus “passou pelas mesmas provações que nós… que foi cercado de fraqueza… que entre clamores e lágrimas suplicou àquele que o  podia salvar da morte e que não foi atendido em sua angústia”, consoante os estudos de dois grandes sábios nas Escrituras — A. Harnack e R. Bultmann — que dão essa versão no lugar daquela que está na Epístola (“e foi atendido em sua piedade” — eusebeia  — em grego, que pode significar, além de piedade, também angústia)…“que teve que aprender a obedecer mediante o sofrimento” (Hebreus 4,15; 5,2.7-8).

Na evangelização tradicional tudo passava pela inteligência intelectual (intellectus fidei) expressa pelo credo e pelo catecismo. Na Exortação, o papa Francisco chega a dizer que “aprisionamos Cristo em esquemas enfadonhos…e assim privamos o cristianismo de sua criatividade”(n.11). Em sua versão, a evangelização passa pela inteligência cordial (intellectus cordis), porque aí têm sua sede o amor, a misericórdia, a ternura e o frescor da Pessoa de Jesus. Ela se expressa pela proximidade, pelo encontro, pelo diálogo e pelo amor. É um cristianismo-casa-aberta para todos, “sem fiscais de doutrina”, e não uma fortaleza fechada e intimidada.

Pois é desse cristianismo que precisamos, capaz de produzir alegria, pois tudo o que nasce verdadeiramente de um encontro profundo e verdadeiro gera a alegria que ninguém pode tirar. É como a alegria dos sul-africanos no sepultamento de Mandela: nascia do fundo do coração e movia todo o corpo.

Falta-nos em nossa cultura mediática e internética esse espaço do encontro, do olho  no olho, de cara a cara, da pele a pele. Para isso temos que realizar “saídas”, palavra sempre repetida pelo papa. “Saída” de nós mesmos para o outro, “saída” para as periferias existenciais (as solidões e os abandonos) “saída” para o universo dos pobres. Essa “saída” é um verdadeiro “Êxodo” que trouxe alegria aos hebreu livres do jugo do faraó.

Nada melhor que lembrar o testemunho de F. Dostoiévski ao “sair” da Casa dos Mortos na Sibéria: “Às vezes, Deus me envia instantes de paz; nestes instantes, amo e sinto que sou amado; foi num desses momentos que compus para mim mesmo um credo, onde tudo é claro e sagrado. Esse credo é muito simples. Ei-lo: creio que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais humano, de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se encontra nele, prefiro ficar com Cristo a ficar com a verdade”.

O papa Francisco faria suas estas palavras de Dostoiévski. Não é uma verdade abstrata que preenche a vida, mas o encontro vivo com uma Pessoa, com Jesus, o Nazareno. É a partir dele que a verdade se faz verdade. Se 2014 nos trouxer um pouco desse encontro (chamem-no de Cristo, de o Profundo, o Mistério em nós, de o Sagrado de todo o ser), então teremos cavado uma fonte donde jorra alegria, que é infinitamente melhor do que qualquer prazer induzido pelo consumo.

Leonardo Boff (teólogo e filósofo)

In http://www.jb.com.br/leonardo-boff/noticias/2013/12/30/no-meio-do-mal-estar-mundial-ha-lugar-para-a-alegria/#

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O SANTO DO DIA

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